GC

Este país não é para velhos

O colaborador de GC en Portugal e comunicador Bernardo Ramirez relata un día diario na vida de Luanda, a capital de Angola, onde agora se atopa.

Por Bernardo Ramírez | Luanda (Angola) | 11/03/2010

  • versión para imprimir

O Galícia Confidencial pediu-me uma vez para escrever sobre a situação de Angola actualmente. Por uma ou por outra razão nunca me sinto muito capaz de o fazer. Não leio notícias suficientes, não vejo noticiários suficientes, não me informo o suficiente. Normalmente aqui, aliás como também em Portugal apenas vivo. Confesso que sou sempre um pouco preconceituoso com os meios de comunicação social.

Angola, e em especial Luanda, não são fáceis de descrever. Mas sinto-me capaz de vos fazer o meu retrato da forma como este povo vive a vida deles. Ontem a caminho de Sangano (uma estância turística a cerca de 100 km a sul de Luanda) os amigos com quem ia no carro diziam: este país não é para velhos. E realmente não é. De uma forma, ou de outra, acho que os 30 anos de guerra civil, depois da guerra contra os colonos portugueses marcou este país de uma forma muito mais profunda do que se imagina.

Viver o presente


Aqui vive-se para o presente. Mas não de uma forma alegre e equilibrada. Apenas com a incerteza de se saber se estaremos vivos amanhã. No tempo da guerra corria-se o permanente perigo de se perder tudo, de se morrer, de se ficar sem nada. Essa forma de estar obrigava as pessoas a duas coisas: não investirem, e não planearam.

Ora um país que não tem investimento e que não tem planeamento não cresce. Aqui as pessoas vivem sempre para o agora. Porque não sabem o que vai ser amanhã. E então para quê estudar? Para quê ceder o lugar ao que vem a seguir? Para quê colocar-me numa posição de humildade? Se calhar amanhã não estou cá.

E para reforçar isso, a esperança de vida é de 40 e poucos anos. Angola é um país jovem e com uma taxa de mortalidade enorme. E o que acontece num país sem esperança cheio de jovens? A loucura. Acontece a loucura.
 
Andar no carro

Sempre que fiz esta viagem de carro para a instância balnear, tanto para lá como de volta para Luanda, fico sempre em pânico com a forma como se conduz. Aqui dentro da cidade, com ou sem loucura, não há espaço para grandes velocidades e por isso o perigo é baixo. Mas nesta via rápida há muito espaço para velocidade. E se juntarmos isso a carros sem condições (sem luzes, sem travões, com pneus carecas), jovens e adultos alcoolizados, e pessoas sem planeamento e sem nada investido dá acidentes muito loucos. Nunca vi menos de dois ou três acidentes em cada viagem.

E ontem foi a nossa vez. Vinha no carro com um casal amigo e uma criança pequenina. Na faixa contrária começamos a ver uma carrinha pickup a vir cada vez mais para a nossa faixa. O meu amigo começa a buzinar e a fazer sinal de luzes, mas o carro não mudava de direcção. Não tínhamos para onde fugir porque ao lado da nossa faixa havia uma vala enorme para onde não podíamos ir. Um susto. Eu percebi que íamos bater. E batemos. Por milagre, o meu amigo conseguiu equilibrar o carro e impedir que capotássemos para a vala, ou fossemos contra outros carros. Foi claramente um milagre. O outro carro bateu ainda noutro carro estacionado e destruiu-o, soube mais tarde.

Nós com o carro com o lado direito destruído conseguimos parar fora da estrada. A bebé estava bem e nós inteiros e nervosos claro. Felizmente toda a gente estava bem. Depois foi o mesmo de sempre. O que nos bateu era director não sei do quê e diz que o pneu furou. Claro que não furou. Achamos que adormeceu. O carro estacionado contra o qual bateu era de um major que estava com umas amigas e que só dizia: o que é que eu vou dizer à minha mulher. Na zona em que o carro que nos bateu parou começou a juntar-se muita gente e disse-me depois o meu amigo até começaram com a conversa de que a culpa é do branco.

Mas para mim, o mais incrível, é que enquanto esperámos, por mais de 3 horas, que tudo se resolvesse, só viamos passar na estrada carros a velocidades incríveis, a fazer manobras incríveis e com atitudes incríveis. Ao ponto de nos afastarmos da estrada com receio que ainda viesse alguém para cima de nós.

Este país tem tudo para dar certo: clima, gente simpática, espaço, locais... Mas ainda não se encontrou. E assusta viver assim. Este país não é para velhos, e aqui, eu já sou cota.

 



Comenta

Estreamos sistema de comentarios. Agora tamén podes respostar directamente ás opinións de outras persoas. Buscamos un sistema social no que poidas expresarte máis naturalmente. Se tes problemas ou suxerencias, escribe a webmaster@galiciaconfidencial.com indicando: sistema operativo, navegador (e versións). Agradecemos a túa colaboración.

¿Que palabra aparece na imaxe?

captcha

¡Non entendo a palabra!: cambiar imaxe






¿Que palabra aparece na imaxe?

captcha

¡Non entendo a palabra!: cambiar imaxe


Comentarios

3 comentarios
3

Bernardo Ramirez

Sinceramente Lucho não sei porque dizem isso. Esta cidade não tem nada de Lisboa. Nos tempos coloniais talvez tenha tido algo de semelhante. Hoje é só uam cidade caótica e suja.


2

Joana Cruz

Sei bem a sensação do medo de andar nessa estrada :-( Ainda bem que estás bem. E é mesmo isso: viver depressa porque pode acabar depressa. Pena que ainda vá demorar uns anos até que percebam que não tem que ser assim, que o paraíso está aí para ser aproveitado até tarde.


1

Lucho

Tengo un viaje programado a Angola el próximo mes y veo que, a pesar de lo que ya sé del pais, es un lugar con muchas sorpresas. Dicen que Luanda es al Lisboa africana, ¿por que será?


Zona costeira de Luanda/ wikipedia